Entry: Finalmente 11.7.04



[Andam por aí uns patetas felizes. Tristes e pobres patetas. A tentarem convencer-se de que o percurso da selecção não foi, apesar da derrota na final, um feito fantástico. E que a derrota final é de alguma maneira, um triunfo (?) seu. Derrotados que foram na esperança e na convicção de que a selecção soçobrasse na 1ª fase, não só tiveram que engolir triunfos sucessivos e exaltantes, como – muito pior – tiveram que assistir às vitórias que mais lhes custaram: a da extraordinária empatia de um homem que desprezam e denigrem com um país; a de um guarda-redes que maltrataram transformado em herói; a de dois jogadores difamados que demonstraram, mais uma vez, a sua dimensão e dignidade.
Apesar da derrota e da enorme tristeza, vale-nos assim a grande alegria de que desta vez não ganhou o portugal minúsculo, mesquinho, maldizente e invejoso. Portugal perdeu com a Grécia, é certo. Mas ganhou imenso. Porque triunfou sobre esses pobres patetas. Derrotámos os merdas.]

Pontos prévios

1. O Euro foi fantástico. O futebol. Os adeptos. A transfiguração do país, das cidades, das pessoas.
A organização foi quase perfeita. A única crítica que ouvi/li foi à (falta de) sinalização nas estradas e ruas. Porque será que não me admiro?

2. Tudo acabou há já uma semana, e ainda sinto uma nostalgia só parecida com os dias pós-Expo. Faltam jogos, adeptos, buzinas, bandeiras, cânticos. O que é que se faz agora?

3. Um sintoma dessa nostalgia colectiva, e uma espécie de negação do luto, são as bandeiras que perduram nas janelas. Ninguém quer ser o primeiro a render-se.
(Sobra uma dúvida: será que o Bruno Prata e o resto da milícia já arrearam as suas? Vistas daqui dir-se-iam azuis e brancas. Seriam da Grécia? Ou serão os gajos monárquicos?)


Ponto FINAL

1. Na final confirmou-se o que eu temia. A equipa grega é um cruzamento da pior (mais eficaz) Alemanha, com a pior (mais eficaz) Itália. Para pior. Ou seja, para mais feio e mais eficaz. É impressionante como não erram e aproveitam o mínimo erro alheio. Horrível.
E pensar que na Grécia se definiu o Belo. Horrível.

2. É tão evidente agora – mas também é fácil, não é? – que eram preferíveis os checos. Ainda para mais sem Nedved…

3. Portugal jogou pouco. Jogou o suficiente para merecer outro resultado, mas não o suficiente para o conseguir. Os jogadores que podiam ser decisivos não fizeram o que se esperaria. Figo, desinspirado e cansado; Deco, desinspirado e bem marcado; C. Ronaldo, desinspirado e inconsequente; Pauleta, desinspirado e impotente. Houve ainda o azar, talvez decisivo, da lesão de Miguel (mais uma vez a fazer um belo jogo) que inviabilizou uma substituição necessária mais tarde (Ronaldo por Simão?).
É difícil destrinçar onde acaba o demérito português e começa o mérito grego, mas, a certa altura, parecia haver uma reprodução nas bancadas do que se passava no relvado: uma primeira parte indiferente, com os gregos a ganharem confiança; um longo período após o golo em que parecia que eram eles 45000 e nós 15000; e uns minutos finais em que conseguimos finalmente responder. Em desespero e sem resultados.

4. Costinha voltou a ser o MÁXIMO CULPADO do golo adversário. Não foi o único mas foi o primeiro. Primeiro porque se deixou antecipar pelo jogador grego, depois porque impediu o Ricardo Carvalho de ir à bola. É evidente que não seria necessário apontá-lo a dedo, mas torna-se urgente quando, mais uma vez, se ouvem pessoas a apontar o primeiro dedo ao guarda-redes Ricardo. Porque se desta vez – ao contrário do que aconteceu no golo do Owen – ele deve partilhar as responsabilidades, atribuir-lhe a responsabilidade máxima só por desonestidade e má-fé. Infelizmente abunda.

5. Claro, já se sabe, com o Baía tudo podia ter sido diferente. Podia ter sido diferente (ou seja, podia ter sido golo) o lance que Ricardo defendeu na primeira parte, numa extraordinária saída com os pés. Ou podia nem ter sido. Podia nem ter tido a oportunidade de fazer tal defesa (ou de deixar entrar tal golo) porque tinha comido o costumeiro chapéu no jogo da meia-final. Por exemplo. Ou podia não ter chegado a experimentar o chapéu, porque tinha resolvido presentear a Espanha com um dos frangos com que se celebrizou na baliza da selecção, como aquele patético na Irlanda ou como o do absurdo bailado num cruel 2-2 na…Grécia. Por exemplo. Podia. Ou não podia? Ou, honestamente, não sabemos se podia? Ou só sabemos se for contra o Ricardo, e a favor do Baía?

6. O melhor jogador português da final foi… Rui Costa. Nos escassos minutos que jogou (muito menos do que os que deveriam ter sido), fez dois passes extraordinários que o C. Ronaldo desperdiçou, e pôs a equipa a mexer em frente à área grega, criando finalmente algum perigo. Só lhe faltou a inspiração final de um remate como o do golo à Inglaterra. Mas isso faltou a todos.
No seu último jogo pela selecção, Rui costa mostrou que ainda faz muita falta. Qualquer um dos cúmplices na campanha abjecta que contra ele foi feita - e que ainda tenha uma réstia de honestidade e perceba um bocadinho de futebol – deve agora reconhecê-lo. Se para além desses dois atributos também tiver uma espinha pode aproveitar para a dobrar e pedir desculpa. Se não, o melhor é retirar-se discretamente. Rastejando, como de costume.

7. Balanço (com uma bandeira pendurada):
- Melhor jogador do Euro2004: Maniche
- Melhor treinador: Scolari (recuso-me a premiar o cinismo do alemão-grego)
- Melhor equipa: a Grécia? (hélas!)
- Melhor futebol: República Checa e Portugal
- Melhor(es) jogo(s): Portugal-Inglaterra e Holanda-República Checa
- Melhor(es) golo(s): Rui Costa (Portugal-Inglaterra) e Maniche (Portugal-Holanda)
- Melhor(es) momento(s): os ‘dois’ penalties de Ricardo na vitória sobre a Inglaterra

8. Para terminar deixo duas perguntas retóricas (parafraseando o LL na primeira, e o Inimigo Público de sexta passada na segunda):
a. Se a derrota do primeiro jogo com a Grécia se deveu à ‘presença obrigatória’ do Rui Costa e ‘ausência criminosa’ dos jogadores do Porto (pois, pois, esqueçamos o Paulo Ferreira. Ou o Costinha. Ou o Maniche); a do segundo jogo com a Grécia dever-se-á à ‘presença obrigatória’ dos jogadores do Porto ou à ‘ausência criminosa’ de Rui Costa ou Nuno Gomes?
b. Se - como muitos, incluindo o próprio, sugeriram - as vitórias que se sucederam a esse descalabro inicial, se deveram em grande parte a José Mourinho, às suas tácticas, aos seus jogadores, às suas rotinas, será que devemos agora atribuir-lhe as culpas da derrota da final?

9. A resposta a ambas as questões é seguramente SIM. Se a mente for tortuosa e parcial. Se se tiver o hábito de cultivar hipóteses sinuosas e inverificáveis do género das que garantem que com outro guarda-redes a bola não entrava.

10. A resposta a ambas as questões é evidentemente NÃO. Do mesmo modo que não se pode afirmar, com toda a certeza, que se em Portugal não houvesse tantos merdas invejosos, tínhamos ganho o campeonato. Ou pode?

   10 comments

Cheerio
August 18, 2004   10:26 AM PDT
 
A ti é que te chamo pateta, merdas e invejoso porque invejas o clube que É CAMPEÃO EUROPEU e que tem o considerado pela UEFA MELHOR GUARDA-REDES DA EUROPA. O teu Portugal mesquinho, realmente não fica na Europa. Não cabe lá...
Gil
July 20, 2004   10:17 AM PDT
 
caro mjose:

- só quem tem o rei na barriga, e vive às custas de glórias passadas nos tempos em que o meu avô tinha 18 ano´s, é que poderá ter a lata de mandar tamanhas calinadas (quase todas) sem razão aparente;

- só mesmo quem não vê futebol e só enxerga a cor das camisolas é que poderá afimar com toda a certeza que o Scolari tinha razão quando andou 2 anos a preparar uma equipa para um europeu sem convocar os melhores jogadores q tinha à disposição.

- só mesmo quem não entende de bola tem a lata de afirmar q fernando couto era melhor q ricardo carvalho, q deco não estava em muito melhor forma q rui costa, q ronaldo desiquilibraria muito mais q simao, e já agora, se o pauleta mereceu 4 oportunidades porque é q o paulo ferreira não mereceu mais uma???

não estou a tentar desculpabilizar as falhas do paulo ferreira - mas um mau passe pode acontecer aos melhores - nem as do costinha - muito embora (e isto o mourinho nos seus comentarios da tvi tinha razao) ele estivesse a jogar demasiado recuado na zona defensiva, correndo o risco de comprometer, e comprometeu - mas não vou sequer tentar desculpabilizar o fernando couto por se desviar do remate do karagounis, nem o ricardo por sofrer um golo por cima do ombro (inglaterra), uma auto-chapelada (holanda) - mas o q é q ele tava a fazer na marca de grandes penalidades??? - e muito menos o golo sofrido dentro da pequena area, ao primeiro poste, numa zona exclusava de actuação do guarda-redes, q nos custou o europeu... não me venhas falar de falhas de marcação pq não as houve, houve foi burrice de um guarda-redes:

1º nao quis nenhum jogador no primeiro poste (e isto num canto);
2º em vez de se colocar no meio da baliza foi-se encostar ao 2º poste e saiu-se ao cruzamento praticamente de joelhos e nas costas de 4(!!!??) jogadores - grego a quem apalpou o cu, andrade, costinha e o grego q marcou o golo;

-no resto tens razao, o miguel fez um optimo europeu, o rui costa fez os seus 10 a 20 minutos em cada jogo (e sejamos realistas pq o Rui já não tem "pedal" pra 90 minutos), infelizmente nunca tivemos um ponta-de-lança (pq a insistencia no pauleta??? o p.ferreira falhou e nunca mais jogou, o pauleta enterrou e voltou e voltou e voltou!!!!)
Gil
July 20, 2004   09:53 AM PDT
 
a 2ª derrota deveu-se à ausencia criminosa do VITOR BAÍA...da inexplicavel presença do PAuleta e da ausencia do Nuno Gomes e do Postiga...
pcm
July 14, 2004   11:34 PM PDT
 
Mais uma vez obrigado, Mjose.
Percebo-o perfeitamente. E gabo-lhe a paciência.

PS - Só vou de férias na sexta e, ainda assim, vão ser férias intermitentes (tenho que vir à bola dia 25, p. ex...), pelo que vou tentar ir cortando umas postas.
Por isso, se puder, continue a aparecer.
E quando for caso disso, boas férias também.
Mjose
July 14, 2004   10:39 PM PDT
 
Voltando à carga porque ontem foi muito a fugir, quero dizer-lhe que que todo o seu post é excelente mas o ponto 8 - e as respectivas perguntas que coloca - é simplesmente delicioso. Digo isto porque durante todo o período do Euro tive ocasião de lidar de muito perto com um portista grande amigo meu (quem disse que os amigos podem ser perfeitos?) e que lhe poderia responder a estas questões na perfeição, bom... quer dizer à maneira dos portistas donos e senhores de um ego enorme neste momento.
Dizia ele - como disseram muitos outros vítimas de cegueira momentânea - no 1º jogo contra a Grécia que o Scolari era um burro porque insistia em não apostar na titularidade de Deco, Maniche,
PFerreira e, maior pecado venial, no RCarvalho. E que por isso aí estava o resultado. E que o Euro iria ser a cópia fiel dos jogos de preparação. Não faltou a a tecla gasta de que o prestes-a-ser-canonizado Baía não tinha deixado entrar aquela bola. Teve até coragem de dizer que Paulo Ferreira tinha tido azar (?) no passe (são coisas que acontecem LOL) para o grego porque entrou nervoso no jogo (!!!). Ordenava então, literalmente, qual emergência nacional que se mexesse JÁ, no jogo seguinte, na equipa toda onde, anedoticamente nenhum jogador do Benfica tinha lugar (ainda hoje lhe custa admitir que o Miguel tivesse feito um Europeu fabuloso. Esta deve doer, deve ser essa a razão). De RCosta então nem se fala: "sacrifica-se já de vez". Ouvia calado, dizendo a tudo que sim (eles gostam muito de ouvir a própria voz e de ter audiência silenciosa à sua volta) e dizia a mim mesmo que só comentaria estes dislates após o jogo limite ao qual Portugal iria tentar chegar.
O jogo seguinte com Espanha já foi mais do seu (dele) agrado (pudera) e passo a vê-lo mais ufano, inchado. "Assim, sim, Scolari afinal não é assim tão burro, o Costinha andou a encher-lhe os ouvidos e os jornais não lhe perdoaram e ele teve que emendar a mão. 1/2 equipa campeã da uropa já lá está, ninguém nos pára agora. Só falta tirar o Miguel e colocar o PFerreira, pois porque só por um 'pequeno' azar o gajo queimou logo o rapaz?".
Convém informar que nem uma menção quanto mais um elogio para o golo solitário e da vitória do eterno salvador da Pátria NGomes, mas nada a que eu não estivesse já habituado.
Nos jogos seguintes nem uma crítica a Scolari, nem às suas escolhas porque estando 1/2 equipa do Porto a jogar o mundo gira melhor e o ar é mais respirável.
Aliás só após o último jogo com a Grécia voltei a ter contacto com esse meu amigo para.... então aí desvairadamente voltar a desancar Scolari como um desalmado restituindo-lhe o estatuto de burro e a Ricardo (nenhuma crítica à falha de marcação de RCarvalho ou de Costinha, nááá!!). Dizia ele: ' O Baía não falhava. Aquela bola é do GR e não dos defesas. O GR está lá para quando os centrais falham". Mais "O Scolari é um burro sim porque andou 2 anos a fazer o quê?, porque nunca rotinou o sistema dos 2 pontas de lança, e... blá,blá...."
Eu tinha prometido que comentaria com ele todas estas atoardas, mas sabe, caro pcm, para quê?
Quando eles têm o rei na barriga e o inchaço é tão grande algo naqueles pequenos cérebros não funciona como nos demais mortais. De maneira que apenas sorri e com uma palmadinha nas costas em tom paternal disse: "Tens razão pá! tens toda a razão".

PS - boas férias!
pcm
July 13, 2004   11:18 PM PDT
 
Caro Mjose

Obrigado pelo comentário e pelo incentivo. É verdade que isto não tem o ritmo desejável, mas tem sido o que se arranja. Já percebi - desta minha curta existência na blogosfera - que é preciso persistir para manter a audiência. A verdade é que nem sempre há alguma coisa para dizer (ou vontade de dizer alguma coisa). Vou tentar manter um ritmo mais regular. Ou ia. Que agora vêm aí férias e a coisa ainda fica mais complicada.
Por outro lado, está-me a ser difícil passar da lógica festiva e global do Euro, para o quotidiano do futebol nacional de clubes/árbitros/caciques/energúmenos.
Mas não desista que eu também não: vá aparecendo.

PS - Claro que o último jogo foi péssimo, uma tremenda desilusão. Mostrámos que somos bons em várias ocasiões anteriores (nas três 'finais' precedentes) e perdemos na última. Na supostamente mais fácil. É uma 'tradição muito nossa', é certo. Mas ainda assim o nosso trajecto/balanço nos últimos 3 europeus é excelente. E sempre a melhorar. Isto comparado com os anos de seca anteriores (de 66 a 96, com a interrupção de 84) é fantástico. Porque para mim a sina portuguesa era não chegarmos às fases finais por nos 'esquecermos' de ganhar a Malta ou à Finlândia. Isso sim era trágico.
Não se trata, agora, de vitórias morais (a especialidade desses tempos) mas da constatação de uma evidência: "We've come a long way".
Anime-se, portanto.

PPS - É verdade que tenho sido benevolente nalguns casos, mas já tinha decidido: agora só tem resposta quem merece resposta.
Mjose
July 13, 2004   09:37 PM PDT
 
Caro pcm, àparte os efeitos colaterais deste EURO2004 (melhor Europeu de sempre, apoio e solidariedade sem limites por parte dos portugueses, etc) que não discuto em absoluto, não posso deixar de expressar a minha indignidade por termos 'morrido na praia'. Neste momento não me apetece ser português, ou seja, contentar-me com migalhas, encostar-me ao 'quase... ganhámos', 'estivémos lá...quase, à eterna mania lusa de nos contentarmos com o fado que nos calha, virarmo-nos para o outro lado e dizer que afinal nem tudo foi mau. FOI MAU, muito mau, o último jogo FOI PÉSSIMO!!! Porque será que quando necessitamos mostrar o quão somos bons (porque somos mesmo muito bons) claudicamos? BASTA de esconder as nossas fraquezas!! EU QUERO O TOPO, não migalhas. Raios partam os Gregos :)).

PS- deixe que me diga que o seu blog apenas peca por ter poucas intervenções suas. Todos os dias cá venho ler e desgosta-me ver que não há threads novos.
Só mais uma coisa, você é bom demais para dar resposta a certos iluminados que comentam as suas opiniões. Faça-nos um favor. Não dê pérolas a porcos.
Um Abraço e continue!
André
July 12, 2004   02:24 PM PDT
 
obrigado amigo, pelo bom senso!
daqui do cu do mundo, faz bem encontrá-lo de quando em vez...
a.
Gonçalo Silva
July 12, 2004   12:27 AM PDT
 
Mais uma vez concordo com praticamente tudo.
Brilhante análise.
Deixa-me só corrigir um ponto.
O bailado patético do Baía contra a Grécia resultou num 3-2 e não 2-2 como referiste. E tivesse sido só um bailado...
Foram várias fifias.
Esse foi o primeiro jogo de Baía pela selecção e logo aí deu indicações do que se seguiria.
LL
July 12, 2004   12:26 AM PDT
 
Nice. Gostei

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